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Deveriam as fotografias de Robert Mapplethorpe ainda chocar o cenário da arte?

Deveriam as fotografias de Robert Mapplethorpe ainda chocar o cenário da arte?


As fotografias sadomasoquistas do americano tem sido motivo para autocensura nos museus

As fotografias de Robert Mapplethorpe sempre foram feitas para chocar. Em qualquer contexto onde eram apresentadas nos anos 1980 – seja no estúdio do artista, nas galerias que o representavam ou em museus que promoveram suas individuais – sua obra tinha o claro interesse de incomodar a sociedade e remexer o status quo ao trazer à tona práticas gays que sempre existiram. Um dos méritos de Robert Mapplethorpe foi ser corajoso o suficiente para falar sobre o sadomasoquismo e homoerotismo e mostrar essas práticas marginalizadas e “amorais” em fotografias que prezam pela beleza, o perfeccionismo, o culto ao corpo. Se esses temas estão presentes na arte desde a Roma Antiga, deveria Robert Mapplethorpe causar ainda tanto escândalo?

EXPECTATIVA VERSUS REALIDADE

 

Mais importante instituição de Portugal, a Fundação Serralves, localizada no Porto, inaugurou a exposição Robert Mapplethorpe: Pictures, no dia 20 de setembro de 2018, e logo se arrependeu de tanto pano para manga que rendeu a individual. Com uma coleção inicial de 179 fotografias produzidas pelo americano durante duas décadas até sua morte prematura em 1989, aos 42 anos, a exposição foi aberta com vinte trabalhos a menos do que se pretendia e, diferente do que se havia divulgado – que seria uma exposição obras tapadas ou áreas reservadas – algumas salas da mostra são restritas a menores de 18 anos.

 

CURADORIA VERSUS INSTITUIÇÃO

A polêmica é confusa. João Ribas, o diretor do Serralves e também o curador da mostra que retirou as vinte obras horas antes da abertura da exposição, diz que foi forçado pela administração do museu. Já a instituição alega que nunca faria tal tipo de censura e que o diretor teria decidido retira-las por vontade própria. A coisa só piorou: Ribas pediu demissão do Serralves e a polêmica chegou ao parlamento português, onde ambas as partes prestaram depoimentos públicos. O diretor acredita que o museu tem a responsabilidade de informar o conteúdo de sexo explícito, mas é importante dar ao visitante a liberdade de escolher. Com depoimentos incoerentes de ambos os lados, não se chegou à conclusão de quem realmente decidiu que os trabalhos não deveriam ser expostos.

 

Leia mais: Deve ser censurada uma obra que sugira assuntos socialmente inaceitáveis?

ANJO DIABÓLICO

 

As fotos do Mapplethorpe são chocantes para quem finge que aquilo o que ele retrata não existe. São fotos de belos homens que ele encontrava na rua e pedia para subir no seu ateliê. São insinuações de orgias, são pênis nas mais diversas posições, são corpos repletos de desejo. São bundas, ânus e também fetiches, roupas sadomasoquistas, correntes, muito couro. Isso tudo com uma elegância no jogo de luz e sombra e no contraste, que fazem das Polaroids em preto e branco não só sedutoras pelo conteúdo erótico e sensual mas também pela sua forma.

 

As orgias e o sadomasoquismo do cenário nova-iorquino underground e gay eram o dia-a-dia  do artista americano – apesar dele ter nascido em 1946, em meio a uma família de classe média alta, tradicional e religiosa. Mapplethorpe tinha uma questão com o cristianismo e com Deus: a transcendência da carne, a transgressão, a punição, o ato de confessar, a devoção – ele levava e invertia esses valores para o sexo e para o seu trabalho de fotografia. Nos anos 1970, ele fazia orgias e depois fotografava aqueles homens de corpos perfeitos, criando portfólios que ele intitulava de “X”, “Y” e “Z” e que ele não conseguia expor em nenhum museu ou galeria. Na época, ele até recorreu a fotografias de flores e retratos de estrelas como Andy Warhol e Arnold Schwarzenegger (cujo corpo também foi maravilhosamente fotografado por Mapplethorpe) para convencer diretores das instituições a exporem suas fotos. As flores também eram um jeito dele mostrar o apreço que tinha pelo belo e de fazer os críticos ficarem boquiabertos com a sua técnica. Pouco a pouco eles se convenciam e se interessavam pelo o que ele tinha para dizer.

 

Mapplethorpe cultivava uma figura de anjo-diabólico: ele era lindo, tinha uma beleza quase angelical, mas se vestia de couro preto, usava correntes e estrelas de Davi no colar. Era idolatrado por homens e mulheres, idolatrava-os também, mas construía com seus amantes-musos uma relação de subserviência e poder. Mas ele conseguiu: levou uma realidade marginalizada e menosprezada para o museu, e finalmente ganhou o reconhecimento que tanto ambicionava.

A AUTOCENSURA…

 

De qualquer jeito, a conivência com a autocensura existiu: seja do diretor ou da instituição, a polêmica mostra que trabalhos como os de Mapplethorpe ainda são uma questão para os museus, que têm a responsabilidade de divulgar e debater obras relevantes e marcantes com total liberdade artística. Só em 2018, sem contar com o Serralves, Mapplethorpe teve 15 individuais no mundo todo – mais uma prova da originalidade que ele trouxe junto a sua obra, tanto no que concerne o conteúdo como a forma dos seus cliques. A autocensura nesse caso só mostra que a virilidade das fotografias não é refletida na coragem que o museu deveria ter tido ao inaugurar a mostra, sustentando debates e não colocando ações conservadoras embaixo do tapete.

 

…TEM ACONTECIDO BASTANTE

 

Outro episódeio de censura do Serralves no mesmo ano: para apresentar a obra de Red Doggy (Canzana), do americano Jeff Koons (@jeffkoons), o museu criou uma sala especial com o aviso quanto ao “conteúdo explicito”: era uma foto de grandes dimensões da atriz pornô Cicciolina numa cena de sexo explícito com Jeff Koons, com quem ela foi casada. A entrada na sala era permitida aos menores desde que com acompanhamento de um adulto.

 

No Brasil, polêmicas relacionadas à censura de exposições foi o que mais se falou no meio artístico, em 2017. Em Historias da Sexualidade, inaugurada em outubro daquele ano no Masp, só poderia visitar a mostra quem fosse maior de 18 anos. Depois de infinitas denuncias à autocensura do museu, ele passou a indicar uma classificação etária para maiores de idade. Ainda mais grave foram as polêmicas da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, fechada pelo próprio espaço expositivo que o sediava, o Santander Cultural, após denúncias e ataques por conta do conteúdo relacionado à liberdade de gênero. Pior do que a censura é a autocensura: com medo da pressão popular, os museus se antecipam em vetar sua própria liberdade curatorial – e as consequências merecem mesmo ser catastróficas!

 

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