Title Image

Direto da Bienal de Veneza: os assuntos mais recorrentes na maior exposição do mundo

Direto da Bienal de Veneza: os assuntos mais recorrentes na maior exposição do mundo

Mesmo que você não vá até Veneza, o BIGORNA te leva numa viagem pelo Giardini e Arsenale (e sem ter que enfrentar pombas e turistas!)

 

Até que se vá uma primeira vez para a Bienal de Veneza, é difícil entender como as centenas de exposições cabem em meio a tantos turistas, pombos, vendedores ambulantes, sorveterias, lojas de máscaras e mais lojas de murano numa ilha pequena, onde se perde grande parte do território para os canais e que está afundando. Não se iluda: a cidade é dos sonhos e a exposição uma verdadeira experiência para os cinco sentidos, mas a concorrência para chegar em qualquer lugar não é fácil, então antes de você viajar até lá para visitar a maior e mais tradicional exposição de arte da terra, o BIGORNA leva um pouco (ou bastante!) dela até você:

Saia da Piazza San Marco e ande uns 15 minutos à beira-mar e você logo dará de cara com um biombo colorido que indica o Arsenale. Esse antigo estaleiro e base naval é ocupado por um pavilhão que recebe a primeira parte  – Proposta A – da exposição principal intitulada Que você viva em tempos interessantes, além de outros 25 pavilhões de representações nacionais. A Proposta B está a mais 15 minutos de andada, nos Giardini, belíssimos jardins onde está o emblemático prédio com o escrito “La Biennale”. Ao redor desta segunda parte da exposição, há outros 29 pavilhões nacionais (é mesmo infinito!). Neste primeiro texto do BIGORNA, percorreremos tudo isso para entender quais são as temáticas, questionamentos ou tipologias que mais aparecem entre as milhares de obras. Mas atenção: esses não são, necessariamente, os grandes destaques da bienal (outros textos e vídeos vêm por aí!).

 

Vídeo: Chegamos na Bienal de Veneza!

 

PROPOSTA INTERESSANTE

 

Começando pelo título: Que você viva em tempos interessantes é assinado pelo americano Ralph Rugoff, que quer enaltecer o fato de a arte nos fazer enxergar o mundo com outros olhos. Nada do que ele diz é novidade, mas nunca é demais relembrar: “Uma exposição deve fazer o seu melhor para abrir o olho dos visitantes e tornar possível novos pontos de vista sobre estar no mundo que eles ainda não haviam considerado”. O curador escolheu 79 artistas de diversos países (todos estão vivos) e pediu que contribuíssem com obras tanto para a Proposta A como para a Proposta B da exposição. Assim, ele quer mostrar múltiplas facetas de um mesmo artista e ainda reiterar a ideia que uma mesma coisa (seja ela uma obra, um assunto polêmico ou um acontecimento) tem vários lados e pontos de vista. Esta divisão lado A/lado B é bem lúdica: você fica tentando descobrir qual obra você já viu na outra parte da exposição e se duas obras do mesmo artista se complementam ou contrapõem. Em todos os casos, a surpresa é sempre boa. Ralph Rugoff propôs ao público um desafio para lá de interessante.

 

Saiba mais: O que é uma bienal?

 

AUTO-DESTRUIÇÃO

 

Interessante pode ser tanto para o bem como para o mal. Em grande parte dos trabalhos, a resposta dos artistas ao título não é lá muito animadora: se colocarmos na balança, eles têm uma visão mais pessimista do que otimista sobre nossos tempos. No trabalho da alemã Alexandra Bircken, quarenta esculturas espalhadas por um dos galpões do Arsenale estão prestes a se suicidar e, se o fizessem, cairiam em cima dos visitantes. Outro trabalho literalmente auto-destrutivo é o da indiana Shilpa Gupta, que colocou um portão giratório na parede. Cada vez que completa 180 graus, as grades encontram, marcam e destroem a própria exposição. Falando em marcas, memória e degradação, no Pavilhão da Alemanha, Natascha Süder Happelmann deixou as cicatrizes da instalação da última Bienal de Veneza, fechou as portas principal do pavilhão e lacrou as suas janelas. É como se a artista estivesse criando um presente sombrio para pessoas que parecem não aprender com seu próprio passado (pense no retorno da extrema direita). Só nesse parágrafo, falei sobre três mulheres incríveis: a participação feminina nesta bienal é de 50%, fato inédito para o evento!

BONECOS (NADA) FOFOS

 

O Pavilhão da Bélgica ganhou menção honrosa pela instalação de Jos de Gruyter & Harald Thys. A primeira sensação ao entrar ali é de uma Disney deturpada. No centro, bonecos bem feitos e mecanizados cumprem suas funções de trabalho enquanto, em celas nas laterais, outros personagens cumprem penas de prisão. No caderno da exposição, cada personagem ganha uma história, mas ali você percebe que não é só quem está na prisão que cometeu crimes horrorosos e sim, todas as pessoas desta cidade fictícia. Merecida a menção honrosa!

Realmente assustador é o pavilhão da Rússia, onde eu não conseguia distinguir os bonecos em tamanho real dos visitantes que, de repente, saíam andando. Numa parte que se parecia mais com a Disney harmônica, o turco Halil Altindere colocou um boneco hiperrealista de um astronauta e a argentina Ad Minoliti vestiu dois animais de pelúcia com roupas coloridas. Na instalação inquietante, mas muito curiosa, da americana Kaari Upson, uma casa de boneca é construída numa escala gigante por onde estão espalhados móveis, dentes e remédios enormes. Nos vídeos, ela faz atuações incômodas. Vestida de boneca, conta histórias que aludem à beleza, feminismo, a ideia de “mulher perfeita” e crimes sexuais. Se incomodou é um bom sinal.

PÓS-COLONIALISMO

 

São vários os trabalhos de afro-americanos ou africanos que batem na tecla do preconceito e representatividade de minorias, e com muita razão: a arte é e sempre foi palco das lutas sociais mais importantes da história e, por isso, artistas negros estão lutando para entrar na bolha da arte contemporânea (e, antes tarde do que nunca, conseguindo!). As fotos em branco e preto da sul-africana Zanele Muholi são bem impressionantes: ela faz autorretratos em que exacerba a cor negra da pele e desafia o visitante com o olhar. Muitas pinturas seguem esse mesmo objetivo: o americano Henry Taylor, o nigeriano Otobong Nkanga e a nigeriana Njideka Akunyili Crosby trazem personagens figurativos negros. O queniano Michael Armitage ganhou uma parede de pinturas sobre papel: apenas com a cor marrom, ele pinta cenas da vida social e política em Nairobi. Já Kahlil Joseph usa videoinstalações para fazer uma espécie de colagem de cenas da mídia sobre afro-americanos. Vale também falar da lindíssima instalação do sul-africano Kemang Wa Lehulere, que constrói um cenário contemplativo remetendo ao Apartheid, e o acachapante Pavilhão do Gana com trabalhos de John Afromkah e Ibrahim Mahama.

 

Saiba mais: Arte africana está na moda?

ESTÉTICA DE JOGO E REALIDADE VIRTUAL

 

Se estamos falando sobre os tempos atuais, a tecnologia não pode ficar de fora: para alguns artistas é uma maneira de falar sobre o futuro, para outros um jeito de reinterpretar o passado ou criar mundos fictícios. A alemã Hito Steyerl faz uma critica contundente à vontade do ser humano de prever o futuro e apostar em cada vez mais tecnologias para isso. Nos seus vídeos, ela conta histórias (reais ou inventadas?) sobre como a tecnologia pode ser um tiro no pé do próprio ser humano. O americano Ed Atkins criou diversos vídeos com uma estética de jogo em que seus personagens repetem sempre a mesma tarefa, como se, sem rumo, estivessem apenas esperando o fim do mundo. A francesa Dominique Gonzalez-Foerster convida o público a colocar óculos e entrar na sua realidade virtual (não me pergunte sobre o que é, a fila de espera estava grande demais…!).

 

Assista: Chegamos na Bienal de Veneza!

Leia Também

Não tem nenhum comentário

Poste um comentário