Title Image

Instruções de “Faça você mesmo” podem ser obras de arte?

Instruções de “Faça você mesmo” podem ser obras de arte?

 

Na quarentena, a versão digital da exposição “do it”, de Hans Ulrich Obrist, nos faz pensar sobre obras que só existem como ideias

Três pontos importantes resumem o “Faça você mesmo” na arte: 1) O mundo está cheio de objetos – por isso, há artistas que não querem produzir mais um; 2) O público pode muito bem se acostumar com a ideia de ser passivo – por isso, outros artistas insistem na ideia de torna-lo ativo; 3) Os museus são “lares” das obras de arte e sustentam a noção de que as obras devem estar separadas dos objetos cotidianos – por isso, muitos artistas não querem produzir mais uma peça de museu.

DO IT

 

Em 1993, Hans Ulrich Obrist (@hansulrichobrist), que hoje é o maior curador do mundo, tinha apenas 24 anos quando, num café em Paris, conversava com os artistas Christian Boltanski e Bertrand Lavier. Nos guardanapos, começou a anotar ideias malucas de uma exposição que consistisse exclusivamente em descrições Do It Yourself. Uma exposição que poderia ser gigantesca, com artistas do mundo todo, que não precisaria gastar dinheiro com transporte de obras e de pessoas, e nem de uma super-produção. Uma exposição em forma de partitura, que só existe no papel e na cabeça, até que fosse encontrado um local onde ela pudesse ser interpretada e encenada de novo a cada vez. Foi aí que começou “do it”, com 12 textos curtos de artistas que indicavam instruções para o público, num catálogo laranja que foi traduzido para oito línguas. A exposição existe agora há 27 anos: é um arquivo de instruções de se expande conforme novos artistas são convidados a participar.

 

FAZ PARTE DA BRINCADEIRA

Esse acervo vem sendo cedido aos museus que quiserem realizar a exposição nos seus espaços. Hans Ulrich compartilha os papeis com as instruções e os museus montam as obras conforme o que lêem. É claro que as obras acabam ganhando diferentes resultados – e isso faz parte da brincadeira. Os artistas que criaram as instruções não têm autorização para se envolver. Os objetos que integram as obras são de uso cotidiano: balas, roupas, broches, papeis e caneta, entre outros, Ou seja, eles são comprados em qualquer esquina pela equipe do museu que deseja realizar a exposição. E grande parte das obras pede, também, o envolvimento do público – parte das instruções também são direcionadas a ele. No final, os museus são obrigados a destruir as obras para que elas não integrem o acervo, não existam como objeto e, sim, apenas como ideia. Assim, a obra também não pode ser comercializada. É ge-ni-al.

 

 

Leia mais sobre Hans Ulrich Obrist no texto Como as instituições de arte podem ajudar a enfrentar a clise climática?

Livro de instruções “Grapefruit” de Yoko Ono (1960)
Obra de Yoko Ono

E AGORA (COMO TUDO), TEM VERSÃO DIGITAL

 

Em tempos de Covid-19, Hans Ulrich Obrist acaba de lançar a versão online da exposição, intitulada “do it (home)”, na plataforma do Google Arts & Culture. Você pode ver as instruções e também pode realizar as que você escolher em casa. Quer exposição online melhor do que aquela que se limita a instruções – e que não te faz ficar o tempo todo pensando no que está perdendo por não estar na frente daquela obra cuja imagem está na sua tela? Não há dúvidas de que as exposições online restrigem muito a experiência com as obras. E como ‘do it” existe apenas como ideia e não tem uma coleção original, pode ser a melhor exposição online que você vai “ver” em tempos de quarentena – justamente porque está na sua origem não ser uma mostra tradicional.

Instrução de David Lynch
Instrução de Hassan Sharif

VAMOS ÀS OBRAS OU MÃOS A OBRA

 

Yoko Ono tem um trabalho revolucionário de instruções para a arte e para a vida, que foi publicado no livro Grapefruit, em 1960. Na exposição “do it (home)” ela participa com a obra “Make a Wish”, em que você faz um pedido e pendura numa árvore dos desejos. Christian Boltanski propõe que você troque um álbum de fotos com seu vizinho e tanto você como ele faça uma exposição na sua casa com algumas delas na parede. Tracey Emin te ajuda a montar sua mesa de forma diferente: ele pede que você coloque 27 garrafas de diferentes cores e tamanhos numa mesa e passe um fio vermelho por entre as garrafas e, se possível, no pé da mesa também. No seu “Estudo para o tempo”, Cildo Meireles pede que você feche os olhos e defina os limites dos sons que seus ouvidos podem escutar. Tem ainda receita de comida de Marina Abramovic, colagem com David Lynch, e uma instrução para criar um novo olhar para o mundo de Olafur Eliasson. Está com preguiça de se mexer? Então comece o dia com uma ginástica para o dedo de Jonas Mekas.

 

Leia mais sobre obras relacionais no texto E como fica a arte interativa se está todo mundo em casa?

Leia Também

Não tem nenhum comentário

Poste um comentário