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Christo embalava o mundo: entenda a obra do artista que acaba de falecer

Christo embalava o mundo: entenda a obra do artista que acaba de falecer

 

Por que ele e Jeanne-Claude marcaram história empacotando a paisagem? E o que significa eles serem referência dessa tal de Land Art?

No dia 17 de junho de 1995, dezenas de caminhões carregados de tecidos estacionaram em frente ao parlamento em Berlim, junto com 90 escaladores profissionais e outros 120 trabalhadores. Durante uma semana, eles trabalharam para literalmente envelopar um dos mais importantes monumentos da Alemanha com 100.000 metros quadrados de um grosso tecido. Durante 15 dias, cinco milhões de pessoas foram ver o “Reichstag embrulhado”, uma das obras mais ambiciosas de Christo e Jeanne-Claude, dupla que passou 23 anos tentando convencer o parlamento alemão a dar o aval para o projeto que ficou para a história. Muito triste saber que Christo acaba de falecer, no dia 31 de maio de 2020, aos 84 anos e de causas naturais.

Photo: Wolfgang Volz/ © 1972 Christo

AGUÁ MOLE EM PEDRA DURA…

 

Christo nasceu na Bulgária, em 1935, no exato dia em que Jeanne-Claude nasceu na Tunísia. Já com estudos e trajetórias como artistas, eles se conheceram em Paris, em 1958, e logo decidiram empacotar. Eles começaram com cadeiras, barris de petróleo, e monumentos públicos como fontes, mas foi na Documenta de Kassel, em 1968, quando eles decidiram empacotar o ar, que viraram a dupla sensação: se, até então, eles embalavam objetos, eles passaram a cobrir paisagens, um pensamento que até então era inconcebível. Em 1972, eles foram para a natureza, e fizeram um gesto lindo na paisagem: abriram uma cortina laranja de ponta a ponta num vale do colorado. Foram para a Austrália embalar ilhas inteiras, fizeram instalações com guarda-chuvas gigantes em florestas no Japão, criaram portais em todo o Central Park, em Nova York e, em 2018, inauguraram a Mastaba, uma instalação flutuante feita com de barris de petróleo no lago do Hyde Park, em Londres. Acredite: eles estavam negociando essa instalação com o governo britânico desde a década de 1960. Apesar de Jeanne-Claude ter falecido em 2009, a parceria profissional e amorosa era de tamanha sintonia que Christo continuou assinando os trabalhos em nome de ambos.

Photo: Wolfgang Volz/ © 1983 Christo

TANTO BATE ATÉ QUE FURA!

 

São vários os motivos quem levam as pessoas a serem apaixonadas pelas instalações: a começar pela beleza do tecido, que é maleável, ganha rugas quando preso e fica esvoaçante com o vento. E tem a ideia do embrulho, como um presente, que ganha um lado místico e curioso. Isso sem falar na escala exagerada e monumental que faz o Arco do Triunfo, por exemplo, parecer um brinquedo empacotado (Christo tinha tido o aval para embrulhar o monumento parisiense ainda esse ano…).

 

Além disso, tem tudo o que as obras provocam em nós, público: a mudança de algo que você poderia ver todos os dias ser transformado em algo totalmente diferente; a ideia de efemeridade das obras criam o desejo de vê-las (do mesmo jeito que tudo é montado, tudo é destruído, e quem viu, viu);  o fato de que a obra precisa ser experienciada ao vivo, porque os esboços, desenhos, e registros em vídeo e fotografia são apenas documentos. Além, claro, da insistência e determinação do casal em passar décadas  insistindo no mesmo projeto mirabolante e movendo montanhas para que ele se concretize.

Photo: Wolfgang Volz / © 2018 Christo

INDEPENDENTES, SEMPRE

 

Outra coisa interessante do casal: todos os projetos que eles fizeram foram financiados por eles mesmos. Eles acreditam que a arte deve ser pública e para todos. Os espaços dito “públicos” não são propriedade de ninguém, e nem a arte deve ser. Por isso, eles não procuravam financiamento, mas tiravam fotos das suas obras para leva-las para galerias e comercializa-las e, com o dinheiro, produzir seu próprio projeto (a foto era um registro que comprovava a existência da obra site-specific, como conto no vídeo abaixo, mas a fotografia não era a obra em si).

 

A liberdade para eles é bem importante conceitualmente em todos os sentidos: a escolha do Reichstag, por exemplo, se deu porque é que é um símbolo da democracia na Alemanha. E, nesse caso, ao embrulhar esse símbolo do poder, eles transformam aquilo num elemento (lindíssimo e poético) da paisagem urbana. As obras também têm  uma noção muito forte de autonomia, ousadia, soltura e atrevimento.

Photo: Wolfgang Volz / © 1991 Christo

ARTE FEITA NA NATUREZA

 

A Land Art é esse tipo de gesto poético feito pelo homem na natureza, um tipo de obra feita principalmente por artistas americano e ingleses da década de 1960 como Christo e Jeanne-Claude, Richard Long, Robert Smithson e Walter de Maria. Eles queriam mesmo ir para longe das cidades, produzir obras apenas para si e para quem fosse até lá vê-las, que não pudessem nunca entrar para o mercado e nem fossem objetos. Olha que legal: o Google Earth fez um mapa para que se possa ver de cima algumas obras de Land Art. Apesar de, originalmente, as obras serem efêmeras e no meio do nada, hoje alguns museus a céu aberto se dedicam a financia-las e preserva-las como o brasileiro Inhotim o americano Dia:Beacon e o japonês Benesse Art Site.

 

Quer saber mais? No vídeo abaixo, conto mais sobre a obra de Christo e Jeanne-Claude e o papel da fotografia para a produção da dupla:

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