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Como ficam as Bienais no pós-pandemia?

Como ficam as Bienais no pós-pandemia?

  Por Laura Rago

 

De repente, o mundo parou. Para alguns, foi só uma pausa; para outros, uma mudança de paradigma.

 

A arte, que já vinha demonstrando sintomas de esgotamento em seus modelos, práticas e processos, foi posta em xeque; ao mesmo tempo, artistas e produtores foram obrigados a pensar alternativas instantâneas em resposta ao momento. Intensamente afetado pela pandemia, o mercado mundial, que movimenta cerca de US$ 60 bilhões ao ano e que, segundo estimativas, abrange 310 mil empresas, empregando aproximadamente 3 milhões de pessoas, viu-se em stand-by, sobretudo nos meses de abril e maio.

 

As bienais, em particular, sofreram grande impacto. O calendário de eventos desse gênero, que envolvem o trabalho de um sem-número de pessoas, teve de ser alterado em função dos novos hábitos e comportamentos adotados para a prevenção do contágio.

 

Cerca de 20 exposições desse tipo tiveram de ser adiadas ou reformuladas: 34a edição da Bienal de São Paulo, 12a Bienal do Mercosul, Bienal de Sidney, 11a Bienal de Berlim, Bienal de Arquitetura de Veneza, 13a Manifesta e BienalSur (série de encontros Sur Global que antecedem a inauguração oficial da 3a edição do evento) são algumas delas. O cancelamento de várias mostras, bem como mudanças nas datas de abertura e nos horários de funcionamento, ou o deslocamento das atividades para o ambiente digital foram medidas tomadas pelas instituições ante a nova realidade.

 

Cabe-nos perguntar, portanto, qual será o destino das bienais, que têm sido o farol a sinalizar mudanças nas artes plásticas e a iluminar os debates contemporâneos, no mundo pós-coronavírus, num cenário agravado pela hegemonia, em escala internacional, de uma ultradireita que despreza o campo da cultura.

 

Provocamos alguns dos maiores pensadores, críticos de arte e curadores brasileiros a fazer uma análise da situação. Entre eles estão o pesquisador e curador Moacir dos Anjos, a curadora-chefe da 12a Bienal do Mercosul, Andrea Giunta, o curador adjunto da 34a Bienal de São Paulo, Paulo Miyada, e o crítico de arte Fabio Cypriano, que compartilharam com o BIGORNA sua avaliação do cenário futuro diante das transformações globais propulsionadas pela pandemia.

Na imagem acima, “Nau” (2017), vídeo de Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado
apresentado na 57ª edição da Bienal Internacional de Arte de Veneza, 2017 (Foto: Julia Flamingo)
Still do vídeo “Ìyá Agbára” (2020), da brasileira Virginia de Medeiros, feito em parceria com Virginia Borges e Gil DuOdé, que integra a programação da 11ª Bienal de Berlim
(Cortesia  Virginia Borges, Gil DuOdé e Virginia de Medeiros)

UM RASANTE SOBRE AS BIENAIS

 

As bienais surgiram do modelo importado de Veneza como mostras alternativas para apresentar a arte contemporânea. A cada dois anos, várias cidades do mundo realizam grandes eventos expositivos nos quais se juntam a uma gama de projetos culturais, artísticos, educacionais, sociais os interesses de mercado.

 

As exposições no formato bienal multiplicaram-se seguindo um modelo de inserção na sociedade local e no mundo globalizado. As atuais cerca de 200 bienais espalhadas por todo o planeta obedecem a um mesmo padrão: cabe a elas mostrar a produção artística atual, tornar-se lugar visível internacionalmente, promover artistas e curadores, criar políticas culturais, legitimar poder e gerar oportunidades de negócios para segmentos específicos. Até 1989, contavam-se cerca de 30 bienais; a rápida expansão do modelo, porém, está mais ligada ao seu sucesso econômico do que ao seu propósito original de apontar novos rumos na arte.

 

O fenômeno da bienalização, que explodiu nos anos 1990, superinflacionou o mercado de arte, gerando discussões sobre a abrangência de eventos dessa magnitude inseridos na economia dos países e mesmo na política, uma vez que participam da correlação das forças mercantis e sociais. Seu impacto na economia criativa é flagrante. As bienais geram postos diretos de trabalho e fomentam a ação de importantes agentes, entre os quais artistas, montadores, curadores, diretores artísticos, críticos e historiadores da arte.

 

A proliferação das grandes exposições temporárias, no entanto, levou à configuração de um novo panorama internacional da arte, que, engendrado pela lógica institucional, resultou na repetição de modelos, cujas diferenças se esgotam em elementos superficiais (eixos curatoriais, artistas e obras, geografia). Em suma, as bienais e eventos similares estão intimamente ligados à economia, ao turismo, à política, enfim, ao capitalismo global.

 

Leia mais: O que é uma bienal?

Pavilhão do Brasil na 54ª Bienal de Veneza, em 2011, foi curada por Moacir dos Anjos e
teve exposição individual de Artur Barrio (Fotos: 54bienalveneza.org.br)

QUAL O FUTURO DAS BIENAIS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO?

 

Deveria uma bienal de arte deixar marcas no tempo, ainda que a transitoriedade e a perspectiva de renovação lhe sejam partes constitutivas? Teria uma bienal o condão de

interferir as relações políticas de seu tempo? Na contemporaneidade, o vínculo entre arte e política, com raras exceções, também se uniformiza e ressoa por meio de fórmulas importadas, que catalogam as relações a partir de uma perspectiva ocidental, cuja tendência é a objetivação dos grupos minorizados (o negro, o índio, o latino, a mulher, os/as LGBT+) representados enquantos tais.

 

Para o pesquisador e curador Moacir dos Anjos, “as bienais no mundo contemporâneo devem almejar um lugar ambíguo e insatisfeito. Devem buscar situar-se entre a celebração de um passado já consagrado e a esterilidade de um presente impositivo; entre a cômoda legitimação que o museu oferece e a ânsia devoradora de um mercado acrítico. Devem ser, desse modo, lugares de experimentação intertemporal, entre o que já foi e o que está por vir. Sua política, por assim dizer, seria então a da abertura contínua de fissuras nos consensos críticos ou patrimoniais, afirmando-se como lugar de reflexão crítica e autocrítica. No mundo pós-coronavírus (se é que é possível falar de um depois de algo cujas marcas físicas e simbólicas ficarão aqui por tempo indefinido), a ambiguidade das bienais certamente será, em certo sentido, ampliada. Afinal, delas dever-se-ia esperar, a partir de agora, considerarem o próprio lugar da arte no mundo, além do lugar que ainda caberia, neste mundo transformado, às instituições artísticas. Em outro sentido, porém, talvez devamos esperar das bienais um pouco menos de ambiguidade, afirmando-se como plataformas de aberta enunciação crítica sobre os fundamentos de um mundo que causa tanto sofrimento seletivo às suas diversas populações. Mas não há como pensar nisso sem admitir que os modelos vigentes de grandes exposições talvez estejam falidos, tendo sido completamente capturados por um sistema político e econômico que, para além dos cenários exuberantes que constrói, exclui e violenta tanta gente. Se há um mundo pós-coronavírus (ou um mundo que agora abriga o coronavírus ou outros vírus que virão como algo inerente à sua paisagem), nesse mundo o desafio será ser assertivo na ambiguidade. Ser preciso sem ser simplificador. Ser dono de si e sempre atento ao outro. Isso vale para as bienais, para a arte, para mim e para você”.

“3 white women, 1 woman of color and no men of color – Out of 71 artists” (1997), obra das Guerrilla Girls, que integram a 12ª edição da Bienal do Mercosul (Foto: Guerrilla Girls)
“A Geometria à Brasileira chega ao paraíso tropical – Amarelo” (2017/2018), de Rosana Paulino, artista homenageada da 12ª Bienal do Mercosul (Foto: Coleção da artista)

O MODELO DAS BIENAIS FARÁ SENTIDO NO PÓS-PANDEMIA? 

 

Se há algo que já sabemos é a visão conservadora da arte e os modelos centralizadores e de repetição de padrões institucionais e estruturais . É fato que novos formatos de bienais emergirão da pandemia e, consequentemente, experiências de recepção, apreensão e Consumo. E, nesse sentido, a internet tem-se mostrado território fértil para a construção de alternativas no mercado global da arte.

 

A 12a edição da Bienal do Mercosul inaugurou, em meados de abril, a versão digital do evento. A curadora-chefe, Andrea Giunta, falou, em entrevista, sobre os desafios para colocar em pé uma bienal online, que, diga-se de passagem, não foram poucos: “Nem sei como enumerá-los [desafios], desde o que era eminentemente urgente, como cuidar das pessoas e saber como estavam, até coexistir com os desacordos internos ou pensar como passar a experiência do espaço físico para o espaço líquido dos computadores e celulares. Muitas partes do site são traduções que não alcançam uma comunicação excelente com o suporte; outras foram bem apropriadas. Acredito que o arquivo afetivo que elaboramos com os celulares, desde as regiões mais remotas do planeta, chegando com precariedade, localidade, espontaneidade, é único. Acredito que a grande contribuição da bienal tenha sido um arquivo de afetos que começou com o isolamento poucos dias depois do lock down. Em seguida, a revista também é importante; ela reúne muitas vozes, é um documento. Acessar as obras, todos os vídeos, isso nos dá a possibilidade de percorrer os espaços da bienal dispondo de muito tempo para apreciar. Mas ainda não consigo fazer uma avaliação, ainda estou envolvida demais no tempo presente”.

 

O que nos parece claro é que algumas práticas estruturais, incutidas no modelo de bienal, deverão ganhar formas mais contundentes de contextualização, em meio às urgências do momento. “Como afirma Donna Haraway [teórica cultural e zoóloga norte-americana que, em 1985, escreveu “Manifesto para Ciborgues” (em inglês)], devemos pensar numa dimensão humana e coletiva a partir dos lugares em que nos situamos. A arte, uma bienal, [esses] são espaços extraordinários para levar adiante tal urgência. O desafio é repensar os formatos, [entender] como, a partir dos locais, mínimos, situados, sanitários, podemos alcançar outros espaços multiplicados”, afirma a argentina Andrea Giunta.

 

Leia mais: Os assuntos mais recorrentes na Bienal de Veneza de 2019

Vista da instalação “Insurgencias Botánicas: Phaseolus Lunatus”, da peruana Ximena Garrido-Lecca,
que inaugurou o ciclo extenso de programações da 34ª Bienal de São Paulo (Foto: Levi Fanan, Fundação Bienal de São Paulo)

SINTOMAS DO CONVENCIONAL

 

Depois do anúncio, em março, na programação da 34a Bienal de São Paulo, o evento foi adiado oficialmente para setembro de 2021. A bienal volta a acontecer em anos ímpares, como quando foi fundada, em 1951. O curador adjunto Paulo Miyada afirma: “Desde o princípio de 2019, estamos trabalhando com a premissa de que a Bienal extrapola a grande exposição que ocupa o Pavilhão por três meses, sendo um processo que se expande no tempo e no espaço. Vínhamos, por isso, trabalhando com exposições e performances programadas para ocupar trechos do Pavilhão, no período que antecede a mostra coletiva, e com exposições organizadas em parceria com mais de 20 instituições de arte da cidade, que aconteceriam simultaneamente à mostra, expandindo seu alcance pela cidade de São Paulo. [A nós] interessa também [mostrar] como uma mesma obra ou um mesmo artista ganham conotações e interpretações diferentes quando mudam os contextos em que os vemos. Tudo isso foi afetado pela pandemia, do ponto de vista do planejamento de datas e formatos. Porém, o conceito nos parece agora ainda mais pertinente do que era antes, pois essa expansão no tempo e no espaço é que agora foi dilatada e será remoldada em torno do grande impacto trazido pela pandemia. Os formatos dos eventos e encontros irão mudar, mas a premissa se sustenta e encontrará formas de se adaptar e, quiçá, de expandir-se. Ou seja, o modelo das bienais poderá fazer sentido se for entendido como um modelo aberto, experimental, comprometido com os públicos locais e embasado no discurso crítico sobre seu tempo. Se não for assim, é porque na verdade está se falando de um modelo envelhecido, que já tinha pouco sentido no mundo pré-pandemia”.

 

Palco e objeto de muitos acontecimentos e discussões, as grandes exposições servem de termômetro para as transformações intrínsecas no sistema da arte. “Acredito que as bienais estejam diante de desafios estruturais, mas que, por isso mesmo, têm a oportunidade de refletir criticamente o estado do mundo – mesmo que exista a chance de essa reflexão levar a mudanças radicais no que entendemos como uma bienal”, completa Miyada.

Vistas da 33ª Bienal de São Paulo, em 2018 (Fotos: Sofia Saleme)

CONTEXTO COMO MÉTODO

 

A bienal de arte tornou-se atividade de pensamento e reflexão que não só postula as relações territoriais como constrói novas leituras de mundo e põe o espectador em choque com questões contemporâneas –– se bem que algumas bienais como a de Berlim e a Manifesta, por exemplo, já anunciavam conteúdos e discussões do momento que foram acelerados pela pandemia.

 

“As bienais que vêm buscando se aprofundar mais no contexto local, como a Manifesta, são as bienais claramente mais sensíveis ao tempo presente, já que respondem mais ao local onde a mostra ocorre, em lugar de serem vitrines internacionais globalizadas, como é o caso de Veneza. Espertamente, a primogênita italiana já foi postergada para 2022, na expectativa de uma normalidade em dois anos. Mas toda essa pausa para reflexão aponta que tamanhos e públicos precisam ser revistos, assim como o circo VIP das bienais. Acho que isso pode trazer menos glamour e mais arte, que é afinal o essencial das bienais”, afirma Fabio Cypriano, crítico de arte, jornalista e professor-doutor na PUC-SP.

“Swinguerra”, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, foi a exposição do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2017

NOVAS PRÁTICAS, NOVOS CANAIS

 

Antes mesmo da Covid-19, o mercado da arte já apontava para um futuro digitalizado. A omnicanalidade, integração de canais, que era uma prática comum no varejo, abre, em meio à pandemia, espaço para outras áreas, mostrando estratégias possíveis nas quais o universo físico e o online se complementam. No termo atual, trata-se do modelo híbrido, em que a experiência da visita se une com a do virtual. Para além do contato (aqui e agora) com a obra de arte, surgem outros modos de trabalho materializados em conteúdos que não seriam vivenciados no espaço físico.

 

Os modelos de bienais deverão quebrar as normas já estabelecidas no mercado da arte –– que já demonstravam desgaste e vinham perdendo seu esplendor com a estafa do circuito artístico ––, desfortalecendo as fórmulas expositivas engessadas, os modos centralizadores de práticas artísticas hegemônicas e as práticas personalistas. Deverão valer-se efetivamente de temas atuais, que possam transcender o discurso alegórico e marcado. Nesse sentido, é preciso também que os agentes culturais e seus protagonistas entendam seu lugar social e revejam seu lugar de poder dentro da estrutura.

 

Cumpre, portanto, encontrar meios de superar o processo de cooptação na produção artística pelo sistema capitalista, mesmo que, para tanto, seja necessário assumir posições radicais, que ultrapassem o ambiente controlado do chamado campo da arte.

 

Leia mais: As mulheres que dominam a Bienal de Veneza

Laura Rago

Laura Rago é curadora e crítica de arte graduada em história e pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Arte: Crítica e Curadoria. Trabalhou na Folha de S.Paulo como repórter de arte e música erudita, e foi editora-assistente na revista Bamboo. Colaborou para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e títulos da editora Abril. Atualmente, representa no Brasil o artista plástico argentino Tec e trabalha como curadora de projetos especiais na galeria Choque Cultural.

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