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SABE O QUE É UMA GALERIA FIGITAL?

SABE O QUE É UMA GALERIA FIGITAL?

A pandemia não só faz com que as galerias encontrem soluções para se colocar digitalmente, mas também coloca em cheque o modelo que elas vêm seguindo desde sempre

Com o confinamento, o mundo das artes foi à loucura. Todos os projetos e espaços de arte tiveram ideias mirabolantes que prometiam fortes alternativas para a arte no mundo digital. Quase um ano depois e ainda estamos esperando propostas à altura da propaganda.

 

A Galeria Paralela seguiu um caminho mais factível. Não ficou tentando se distanciar tanto do espaço físico para enveredar no mundo abstrato do digital. Pelo contrário: criou um mundo real no online. A galeria não existe como lugar físico, mas seu espaço foi inteirinho criado em um programa de computador, e por isso surgiu com a palavra figital. Ou seja, por mais que pareça que você está vendo imagens de uma galeria bem bonita e minimalista em fotos muito bem tiradas, a verdade é que a galeria foi inteirinha criada em maquete digital, a partir de uma planta pré-definida e super elaborada, com pensamento desde iluminação até a altura do pé-direito. O que vemos na tela é a simulação do que seria um registro fotográfico de uma exposição em espaço real. As obras realmente existem: as artistas participantes das exposições são encarregadas de tirar fotos em boa qualidade das suas obras físicas e envia-las para a Galeria Paralela, que insere isso no seu espaço digital. A galeria figital é apenas um PDF bonito em que passamos os olhos pelas várias obras, mas vistas de exposição que nos mostram o diálogo criado entre as obras e das obras com o espaço.

Acima: vista de exposição com obras de Sofia Saleme (Crédito: Galeria Paralela)
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Vista de exposição com obras de Maria Flexa e Thalita Rossi (Crédito: Galeria Paralela)

REVENDO MODELOS

 

A lista de prós desse modelo é extensa: a galeria não paga aluguel, as artistas não precisam enviar os trabalhos fisicamente, não há gastos de energia nem com a equipe para montagem, limpeza e tudo o mais. Esse espaço figital se aproxima da experiência que nós, público, conhecíamos anteriormente e coloca as obras como protagonistas da exposição, e não a tecnologia ou ferramentas mirabolantes, o que pode desviar a atenção do espectador do que realmente interessa. A ideia está entre as melhores soluções criadas na pandemia porque questiona o próprio modelo do funcionamento de uma galeria tradicional, que já está em crise há tempos. E agora, quando o mundo inteiro está em crise, é impossível postergar novamente a discussão sobre a revisão deste modelo.

 

ARTISTA PODE SER CURADORA E GALERISTA, SIM!

 

A fundadora da Galeria Paralela é Marina Ribas (@marinaribas.mr) que propõe um trabalho horizontal, na qual envolve os artistas das exposições figitais em grande parte do processo de criação e montagem da exposição. Ela mesma é artista, então sabe bem o que é esse lugar de uma certa “submissão” que os artistas têm perante a galeria. No mundo da arte contemporânea, é muito difícil ser artista jovem e ser representado por uma boa galeria, ao passo que este é o caminho mais óbvio para um jovem artista se tornar conhecido. Com este modelo online, a Marina propõe que diversas artistas jovens ganhem uma vitrine para expor seus trabalhos periodicamente, mas não pede exclusividade delas em troca.

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Vista da sala 1 com trabalhos de Agrade (Crédito: Galeria Paralela)

MENOS TRABALHO BRAÇAL, MAIS TRABALHO MENTAL

 

Por não investir financeiramente na estrutura de um espaço, ela também não exige exclusividade de vendas, e tem tempo para se envolver conceitualmente na exposição e conhecer a fundo o trabalho das artistas que irá expor. E assim percebemos que a quantidade de exposições é aqui substituída pela profundidade e pelo esmero. O objetivo é simples: apresentar de maneira justa o trabalho de jovens artistas, promover o diálogo entre elas, e oferecer uma exposição bem montada. E claro que criar uma boa narrativa também ajuda a conquistar possíveis compradores, afinal, galerias são comerciais. Todas as obras expostas na galeria figital a estão à venda e uma parte, assim como em qualquer outra galeria, fica para a Paralela.

 

ENTRECORPOS

 

“Entrecorpos” é o título da coletiva em cartaz na galeria que reúne apenas trabalhos feitos por jovens artistas mulheres, em suas várias formas de ser ela: Agrade (@agradecamiz), Alice Gelli (@alicegelli), Barbara Venosa (@barbara_venosa), Gabriela Fero (@gabrielafero), Maria Flexa (@mariaflexar), Odaraya Mello (@olumello_neto), Sofia Saleme (@sofiasaleme) e Talitha Rossi (@taitharossi). É também um posicionamento interessante da Marina Ribas, que decidiu agir a favor da representação feminina no mundo da arte (movimento que, ainda bem, vem sendo cada vez mais forte no mundo todo, leia mais sobre o assunto aqui). Dedicada ao corpo – social, politico, individual, histórico – a exposição traz diferentes maneiras dessas artistas lidarem, enxergarem e sentirem seus corpos e os corpos à sua volta.

Obras de Talitha Rossi (Crédito: Galeria Paralela)

De Talitha Rossi chama atenção a cor vermelha. Nas suas performances, os cabelos ruivos da artista harmonizam com elementos avermelhados da natureza como as pedras, a areia e a maçã, representando a conexão quase primitiva e sensorial entre a natureza e a mulher. Além das fotografias da série “Minha selvagem expandida”, ela também trabalha com bordado sobre tecido. O bordado é bem forte em muitas produções femininas: ele remete à uma prática que desde tempos ancestrais representa o universo feminino, e tem algo de muito íntimo e meditativo. É uma das técnicas mais presentes no trabalho da franco-americana Louise Bourgeois, cujas esculturas de aranhas gigantes representam o tecer e a reparação do presente (assista ao vídeo do BIGORNA sobre esta artista aqui).

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Série Okunoin, de Sofia Saleme (Crédito: Galeria Paralela)

Se uma mexa de cabelo está em um dos bordados de Talitha, os cabelos são fio condutor do trabalho “Pequenas Mortes”, da paulistana Sofia Saleme. A também diretora de arte do BIGORNA coletou os fios de cabelo que caíam no banho durante cem dias no ano de 2019, e fez rituais diários de muita atenção e até contemplação desses fios que acabaram de perder a vida, desenhando-os um por um em papel de algodão e nanquim. A série de 100 desenhos reflete sobre a linha tênue entre a vida e a morte, o envelhecimento, a impermanência e a imperfeição. Assuntos que permeiam o conceito do Wabi-sabi japonês e que também estão presentes na série de fotos que a artista tirou de si mesma no cemitério de Okunoin, no Japão, em que a sua pele extremamente branca, estrangeira, e de certa maneira intrusa, aparece em meio às lápides de pedra tomadas pela natureza e pelo tempo (leia mais neste link sobre a colaboração da artista no BIGORNA durante sua residência no Japão).

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Vista da exposição com obras de Alice Gelli e Maria Flexa (Crédito: Galeria Paralela)

A cor avermelhada volta a estar presente nos trabalhos de Maria Flexa, que mais do que representar as formas do corpo, usa o próprio sangue como material das suas pinturas, que são feitas sobre tecido ou tela. A cor do sangue não é vibrante, mas aparece sem alarde ou agressividade. A cor é tão singela e sensível como as formas do corpo da mulher que estão nas suas pinturas. Também vale falar do bordado intitulado “Riacho”, que tem a forma de um rio, mas também da vagina e das veias do corpo.

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Vista da exposição com obra de Gabriela Fero (Crédito: Galeria Paralela)

VIDA LONGA!

 

A exposição tem um caráter efêmero, já que novas artistas são convidadas para participar de cada exposição, e outras são escolhidas a partir da chamada aberta (já é possível enviar seu portfólio para a próxima exposição “Narrativas poéticas”). Mas o interessante é que todas as mostras continuam online por tempo indeterminado. Todo o trabalho para a realização da exposição ganha sobrevida, assim como a obra das artistas, que permanece visível no site.

Vista da exposição com obra de Barbara Venosa (Crédito: Galeria Paralela)
Vista da exposição com obras de Odaraya Mello (Crédito: Galeria Paralela)

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