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34a Bienal de São Paulo com (e por) crianças!

34a Bienal de São Paulo com (e por) crianças!

Passado e presente: memórias afetivas da 34a Bienal de São Paulo

Por Laura Rago

Coleciono com carinho as lembranças de minhas visitas à Bienal de São Paulo, quando, ainda criança, em companhia de minha mãe, a tudo olhava com um misto de espanto e curiosidade. Ela, sempre munida de um caderninho em que anotava meticulosamente as obras que não podia deixar de ver, era, a um só tempo, mãe e curadora.

 

Eram tantas as perguntas – “Qual o nome da obra?”, “Qual o nome do artista?”, “Posso tocar?” –, cujas respostas vinham misturadas com advertências: “Não corre!”, “Cuidado com a obra!”. A memória despertou quando me vi, na visita à 34a Bienal de São Paulo, na posição da mãe que acompanha e ensina. Agora eram as minhas filhas a repetir minhas perguntas de criança e eu a repetir o papel de minha mãe.

Foi com a sensação de ter voltado no tempo que iniciei a visita a esta edição, recém inaugurada, depois de um ano de atraso por causa da pandemia. Sob o título Faz Escuro, mas Eu Canto, reuniram-se mais de mil trabalhos de 91 artistas de todos os continentes.

 

É fato que levar criança a uma mostra de Bienal sempre exige planejamento, seja porque a exposição é muito grande, com muitas obras, o que pode cansar os pequenos, seja porque nem tudo será compreendido por quem tem tão pouca idade. É por isso que a mãe ou o pai se tornam curadores amadores, a conduzir os filhos por entre cores, formas, objetos e materiais de todo tipo, organizados em torno de mensagens as mais diversas.

Instalação externa de Paulo Nazareth na entrada da Bienal © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

Neste ano, fiz diferente. Com as filhas mais crescidas, pude propor a elas um desafio: traçar nosso próprio caminho dentro do espaço expositivo, que para elas parecia uma “floresta com obras de arte”. Antes de iniciarmos o passeio, expliquei-lhes que escreveria um texto para o Bigorna sobre aquela experiência na Bienal e que elas me ajudariam a sugerir as obras mais interessantes para outras crianças. As dicas que você vai ler agora foram pensadas por duas meninas, uma de oito anos e outra de quatro, após uma visita de duas horas e 40 minutos, com parada para petiscar no café Pão (segundo pavimento).

 

É bom dizer que todas as obras levantam questões sobre debates atuais, como o massacre dos povos originários durante o processo de colonização e o próprio processo em si, além do racismo, cujas origens também remontam a esse período da história. A arte pode propiciar uma ótima oportunidade para, de modo lúdico, iniciar conversas importantes com seu filho.

Vídeo de Ana Adamovic

RESULTADO DA ENQUETE: EMPATE

 

Começamos com cinco obras empatadas em primeiro lugar na preferência das minhas meninas. Algo me diz que, como elas, a criançada vai ficar deslumbrada diante do meteorito Santa Luzia (térreo), o segundo maior objeto espacial encontrado no Brasil, que foi descoberto em 1921 no município de Santa Luzia de Goiás, atual Luziânia. A peça pertence ao acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que pegou fogo em 2 de setembro de 2018. Daquele desastre foram recuperados mais de 1.500 itens, três dos quais estão expostos na Bienal. A instituição aparece como um dos 14 enunciados exibidos na Bienal, objetos de forte peso simbólico, que, mesmo não sendo propriamente obras de arte, carregam histórias marcantes e complexas, trazendo para o presente discussões sobre um passado pulsante.

Outras quatro obras disputaram a preferência de nossas minicuradoras: Os Personagens de Canberra (térreo), série de 13 esculturas da artista canadense Tamara Henderson, que, com objetos suspensos e coloridos, instigam a imaginação dos pequenos; a instalação Os Espíritos das Minhas Filhas, um conjunto de vestidos, máscaras, objetos e peças na forma de animais, da artista indígena Sueli Maxakali (3o pavimento), uma liderança dos Maxakali, povo originário de uma região compreendida entre os atuais estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo; a obra Insurgências BotânicasPhaseolus Lunatus, da peruana Ximena Garrido-Lecca (3o pavimento), uma instalação iluminada com estrutura hidropônica em que são plantadas mudas de favas daquela espécie (é possível vê-las no seu processo de desenvolvimento, sendo uma oportunidade para acompanhar diferentes momentos da transformação da instalação); e, por fim, Paisagem (2o pavimento), um labirinto de vidro com intervenções que representam marcas de tiro, obra da artista gaúcha Regina Silveira. Atenção: o trabalho trata da violência, mas, embora cause certo desconforto no adulto, não provocou incômodo nas crianças.

Obra de Frida Orupabo
Os Personagens de Canberra, da artista Tamara Henderson

ESCOLHAS INDIVIDUAIS

LENA, 4 ANOS

 

Minha filha mais nova ficou encantada com as colagens da artista, socióloga e assistente social norueguesa Frida Orupabo (térreo), cujo trabalho evidencia a objetificação do corpo da mulher negra, num processo que se estende desde a época colonial até os dias de hoje.

 

Perguntava “quem era aquela menina que estava nos olhando” e “por que ela estava lá”. Ficou impressionada com o olhar das pessoas representadas, que bem descreveu ao dizer que era “como se elas quisessem dizer algo”.

O enunciado Sino de Ouro Preto (1o pavimento), que estava suspenso, fez que a pequena ficasse por um bom tempo parada esperando algo acontecer. O sino, datado de 1750 e localizado na cidade mineira de Ouro Preto, soou em duas ocasiões na história do Brasil: no dia da morte de Tiradentes, em abril de 1792 (à revelia de ordens oficiais), e na inauguração de Brasília (cidade para a qual foi temporariamente transportado), em 1960. Logo na sequência, minha pequena correu para ver as projeções distorcidas com sombras desproporcionais no conjunto de imagens dilatáveis, intitulado Simulacros (1o pavimento), obra da artista gaúcha Regina Silveira.

Voltou a figurar entre os artistas selecionados Tamara Henderson, cujas pinturas oníricas com molduras de papel machê e malha de aço, produzidas em colaboração com Nell Pearson, foram chamadas de Um Deserto Peneirando Areia para que o Tempo Passe (2o pavimento). Outra tela que emocionou foi Maternidade (3o pavimento), de Christoforos Savva, provavelmente o artista cipriota mais importante do século 20. O trabalho faz parte de uma série de patchworks com sobras de tecido, que o artista apelidou de yfasmatografias (literalmente: escritas ou desenhos em tecido). Por fim, fizeram sucesso a obra Árvore da Vida e da Abundância (2o pavimento), pintura que retrata uma grande árvore com diferentes animais em volta do caule, do colombiano Abel Rodriguez, os objetos de Kelly Sinnapah Mary (3o pavimento), que trazem uma menina com vários olhos em diferentes situações, e as estranhas peças escultóricas da artista chinesa Guan Xiao (3o pavimento).

Fotografias de Mauro Restiffe © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

ANTONIA, 8 ANOS

 

Antonia levou a sério a brincadeira. Munida da sua máquina polaroide, percorreu com olhar atento todas as obras. Findo o percurso do primeiro pavimento, eu, pensando que pudesse ajudar na tarefa, perguntei o que ela estava achando, se já tinha escolhido alguma obra. “Ainda não; sou exigente”, ela respondeu com a sabedoria de quem só pretende selecionar os melhores depois de conhecer o conjunto por completo.

 

A exigência, no entanto, não durou muito. Quando viu a grande instalação com as fotografias da série Empossamento (2003) justapostas às da série Inominável (2019), de Mauro Restiffe (1o pavimento), não teve dúvida: “Achei a minha primeira dica”, disse Antonia. Em seguida, fez uma boa leitura da arena política que encontrou nas imagens, relacionando também as construções da praça dos Três Poderes com o prédio da Bienal. “São do mesmo arquiteto, não é, mamãe!?”

Paisagem, labirinto de vidro da artista Regina Silveira

Fiquei surpresa com a quantidade de vídeos que Antonia elegeu: a videoinstalação da americana Andrea Fraser (1o pavimento), na qual a artista faz uma série de reportagens televisivas assumindo o papel de repórter da TV Cultura; o vídeo que é um justaposto de imagens e textos diferentes, intitulado O Corvo, A Égua e o Poço, da porto-riquenha Beatriz Santiago Muñoz (2o pavimento); a videoinstalação Sangue Pesado, que traz crenças ancestrais com referências estéticas contemporâneas, dividida em três telas, da americana Naomi Rincón Gallardo (2o pavimento); o vídeo Evil.27: Selma, do artista visual americano Tony Cokes (2o pavimento), que parte do boicote ao ônibus Montgomery, um dos marcos do grande movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos em meados dos anos 1950. A videoinstalação Dois Coros, que mostra crianças interpretando uma canção em língua de sinais, da artista sérvia Ana Adamovic (3o pavimento), também entrou na lista. E, por último, Circulação (2o pavimento), do artista Daniel de Paula, obra feita com imagens em movimento, quase sempre produzidas por drone, cedidas por empresas das áreas de infraestrutura de comunicação de dados, de extração de recursos naturais e de geração de energia. Ela parava em cada sala ou instalação e, pacientemente, admirava cada trabalho.

Muito próxima à obra de Daniel está a âncora de toneladas (2o pavimento) de Arjan Martins, que carrega uma representatividade simbólica estratégica para a mostra. Ao lado, está o enunciado Os Retratos de Frederick Douglass (2o pavimento), retratos do abolicionista norte-americano Frederick Douglass (1818-1895), que utilizou sua própria imagem como ferramenta na luta pela liberdade e contra o racismo. Douglass é considerado o americano mais fotografado do século XIX. As histórias das obras renderam conversas interessantíssimas, uma vez que minha filha está estudando as diásporas e outros fluxos culturais e o racismo.

 

No passeio, Antonia trouxe um ponto interessante: “A Bienal é um lugar onde artistas de diferentes lugares se veem juntos, né?!”. Nesta edição, particularmente, os encontros entre artistas de diferentes tempos e espaços estão muito claros (potentes e bem amarrados!). Lindo de ver!

Instalação de Daiara Tukano © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

As inter-relações entre um artista e outro ganham contornos surpreendentes e de alta voltagem reflexiva, como ocorre nas obras de Lygia Pape e Daiara Tukano (3o pavimento) ou nas pinturas opacas de Antonio Dias e nas esculturas de Hanni Kamaly (2o pavimento). Do jeito dela, minha pequena crítica de arte conseguiu entender as convergências das obras.

 

Chamou a atenção também a série de guaches de Alice Shintani (3o pavimento), criados a partir de imagens da flora e da fauna brasileira, sobretudo da Amazônia. Uma das pinturas, que levava a uma banana, remeteu imediatamente ao pintor Antonio Henrique Amaral. A artista paulista também apresenta no evento a série Menas (2o pavimento), de papéis pintados com tinta guache e dobrados em pequenas sanfonas, desenvolvida enquanto vendia brigadeiros na Av. Paulista. Como um farol, a instalação supercolorida e arquitetônica, da italiana Marinella Senatore, ilumina os caminhos de resistência e também da revolução. A obra Nos Erguemos ao Levantar Outras Pessoas (3o pavimento) foi inspirada nas luzes da tradição popular do sul da Itália. Tiveram participação no trabalho os agentes culturais da Cidade de Tiradentes.

 

Antonia destaca também duas instalações que estão na área externa do parque: a imagem gigante de Marielle Franco, esculpida pelo artista Paulo Nazareth, e as serpentes infláveis de Jaider Esbell. Sem dúvida, a 34a Bienal surpreende e ensina tanto aos adultos como aos pequenos.
Faz todo o mundo pensar.

Laura Rago

Laura Rago é curadora e crítica de arte graduada em história e pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Arte: Crítica e Curadoria. Trabalhou na Folha de S.Paulo como repórter de arte e música erudita, e foi editora-assistente na revista Bamboo. Colaborou para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e títulos da editora Abril. Atualmente, representa no Brasil o artista plástico argentino Tec e trabalha como curadora de projetos especiais na galeria Choque Cultural.

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