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O que faz um curador de arte, afinal?

O que faz um curador de arte, afinal?

Por Laura Rago

A curadoria é o pretinho básico da cena artística contemporânea. Todo mundo precisa ter (e quer ter). E a figura do curador remetida há pouco tempo à imagem da pessoa apática ou glamurosa e de nariz empinado foi hoje substituída por um profissional que põe a mão na massa: faz de montagem a captação de recursos, tem uma visão 360 do que acontece no mundo e precisa sustentar um bom jogo de cintura. O lugar alcançado pelo papel do curador é reflexo de como ele dá inteligibilidade ao trabalho do artista e ao processo de criação, e desenvolve uma intersecção fundamental entre o artista, as instituições culturais, a história da arte, o contexto atual, o público e o espaço.

 

Exposição “Pardo é papel”, de Maxwell Alexandre no Instituto Tomie Ohtake, cujo núcleo de pesquisa e curadoria é composto por Paulo Miyada, Priscyla Gomes e Ana Paula Lopes 

CURADORIA COMO PROFISSÃO É ALGO RECENTE!

 

Durante algum tempo, a atividade curatorial ficou presa à prática do colecionismo, que existe desde a Antiguidade, e, posteriormente, esteve associada aos gabinetes de curiosidades, aos antiquários do século XVIII e aos Salões de Arte até surgirem os primeiros museus e a função do conservateur ou o conservador das coleções.

 

A noção de curador, por sua vez, surge na passagem da arte moderna para a arte contemporânea, tendo como uma das figuras de proa o suíço Harald Szeemann (1933-2005), que aparece em 1969 como um protótipo da imagem do curador, com a mostra “Quando Atitudes se Tornam Forma”, no Kunsthalle de Berna. A exposição inovou nos modos de montagem e de percepção da arte tal como ela vinha sendo apresentada. Além de introduzir artistas conceituais e minimalistas em uma instituição na Europa, Szeemann forjou uma nova relação de interatividade entre arte, artistas, público e espaço. Entre os artistas que participaram da mostra estavam Joseph Beuys, Bruce Nauman, Richard Serra, Carl Andre, Robert Ryman e Sol LeWitt.

 

Embora venha tomando forma desde 1950, com a organização mais sistemática da arte e o crescimento do mercado artístico, o papel do curador tornou-se mais definido por volta dos anos 1980. Nesse momento, o curador já surgia como um profissional que levava para dentro das exposições artísticas, entendidas aqui como organismos, uma abordagem crítica, promovendo a reflexão sobre questões da historiografia, do tempo presente e do espaço expositivo.

34a Bienal de São Paulo com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, Paulo Miyada (curador adjunto),
Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez (curadores convidados), e Ana Roman (curadora-assistente)

O QUE MUDOU DE LÁ PARA CÁ?

 

É curioso pensar que somente no início dos anos 2000 o verbete “curador de arte” foi inserido no dicionário Aurélio, sendo o profissional definido como aquele que “se encarrega de organizar e prover a manutenção de obras de arte em museus e galerias”. Na Wikipedia, a palavra curador (artes) apareceria em 2008, como a “pessoa responsável pela concepção das obras de arte, montagem e supervisão de uma exposição da obra, além de ser também o responsável pela execução e revisão do catálogo da exposição”.

 

Nenhum desses verbetes, porém, conta o mais importante da prática de um curador – ele não é apenas aquele que escolhe obras e artistas e monta uma exposição com elas. O papel maior do curador – e a principal característica que torna o curador um bom profissional – é a capacidade de criar camadas de reflexão e entendimento a partir das obras e artistas que ele escolheu. Nesse sentido, fica claro que a atividade do curador não é tão visível, pois só se materializa na exposição em si, como parte de um determinado trabalho. É como se o produto final apagasse todo o seu processo de produção.

 

O negócio é muito mais do que isso: é lento e bem puxado!

A Pinacoteca de São Paulo tem excelente equipe de curadoria comandada por Jochen Volz

E, AFINAL, QUAL É O  PAPEL DO CURADOR?

 

De fato, houve uma virada na práxis curatorial. Aquele curador a quem cabia a preservação, a documentação, o estudo e a difusão de um acervo e/ou de uma coleção e para quem os artistas eram simples intérpretes de suas mostras é coisa do passado. A velha pecha de elitista e inalcançável que cercava o todo-poderoso curador tornou-se fora de moda. Hoje estamos falando de um profissional que exerce múltiplas funções: atua como historiador, lançando mão de documentos históricos quando necessário, como escritor, comunicador, difusor da cultura, produtor, arquiteto (ufa, e não para por aí!), operacionalizando também tarefas burocráticas, como a gestão das instituições e de seus acervos e até de obras comissionadas por patrocinadores.

 

É tarefa do curador, com base em elaborações intelectuais e articulações com o contexto, estabelecer diálogos e criar relações entre os artistas, a arte e a produção de sentidos dos trabalhos. Por meio desse exercício, propõe novas leituras das obras, mas sem fechá-las. Seu trabalho se desdobra em espaços de legitimação da arte contemporânea, seja em museus, seja em galerias, seja em instituições culturais, seja em espaços independentes, construindo uma narrativa e evidenciando uma empreitada simbólica pujante.

 

O curador também desempenha o papel de tensionar, por meio de sua linguagem curatorial, a relação do público com a obra e a relação da obra com o espaço e com a história da arte. Ele atua tecendo uma grande teia, que também está conectada ao campo educativo, na medida em que conta a sua história para o público, que pode ser ou não especializado, segundo recorte temático ou tese apresentada. Nessa colcha de retalhos, o curador desvela para o espectador as problemáticas que os artistas propõem, ampliando o universo daquilo que está sendo apresentado.

Exposição “José Damasceno: Moto-contínuo” na Estação Pinacoteca teve curadoria de José Augusto Ribeiro

HAJA JOGO DE CINTURA!

 

Não existe uma fórmula exata do caminho a ser percorrido pelo curador até a exposição, sendo esta o resultado da etapa final. Existem várias etapas que antecedem o texto de parede e o projeto de viabilização, cujo processo, muitas vezes, é de responsabilidade do curador. O trabalho do curador é multidisciplinar e exige um olhar 360º. É por isso que a formação de um curador não passa tanto por uma especialização, já que pode compreender todos os campos do saber, desde história e filosofia até literatura, arquitetura e tecnologia! Sentidos aguçados também são de extrema importância: é indispensável saber escutar e ter visão crítica.

 

A princípio, conceber uma exposição funciona como um processo criativo, forjado por meio de muita pesquisa e contato direto com os artistas e a arte em si, com um olho no retrovisor e outro através dele. Também é imprescindível o jogo de cintura para lidar com a complexidade de regras do sistema de arte, seja com as políticas públicas (dos espaços institucionais) ou com o financiamento das mostras (patrocinadores), seja com as medidas de caráter censório (classificação etária, temática), que vão influenciar no  resultado final do projeto. Cabe ressaltar, nas fases de concepção de uma mostra, a importância da noção expográfica. O espaço é estruturante em uma exposição, capaz de possibilitar diferentes ângulos de entendimento do material apresentado. A curadoria é um exercício constante de pesquisa do objeto, desempenhando compromisso e ética com a história da arte, cujo movimento é permanente.

Laura Rago

Laura Rago é curadora e crítica de arte graduada em história e pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Arte: Crítica e Curadoria. Trabalhou na Folha de S.Paulo como repórter de arte e música erudita, e foi editora-assistente na revista Bamboo. Colaborou para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e títulos da editora Abril. Atualmente, representa no Brasil o artista plástico argentino Tec e trabalha como curadora de projetos especiais na galeria Choque Cultural.

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