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Os vírus virão

Os vírus virão

Qual será o legado cultural da sua quarentena?

Por Luana Ferrari

A matéria de capa do Uol diz “viaje pelo espaço e converse com os dinossauros em tours virtuais”. E, no entanto, a definição da minha quarentena segue sendo o Bill Murray no clássico da sessão da tarde dos anos 90 “o feitiço do tempo”, onde o rabugento meteorologista revive o dia da marmota indefinidamente.

 

A armadilha do loop temporal não é rara no cinema e na literatura, mas, o curioso é notar que o herói, ou heroína da trama, nunca se vê preso em um dos momentos mais memoráveis de sua existência. Em “antes que eu vá” e “a morte te dá parabéns”, como os títulos sugerem, as mocinhas têm o desprazer de reviver eternamente o dia em que perdem suas vidas, assim como Nadia, a protagonista da série “boneca russa”, onde a jovem tenta mudar seu trágico, e infindável destino, em 8 episódios. No curta 12:01” (adaptado de um conto dos anos 70), Kurtwook Smith interpreta um João Ninguém que nem tem o privilégio de dormir ou morrer para reencarnar a mesma hora ingrata de um dia qualquer.

 

E com apenas algumas linhas eu consegui indicar 5 filmes pseudo-cult que você pode, e deve, ver durante o isolamento. Deve mesmo? Pode mesmo? Quer? A USP, a FGV e até Harvard disponibilizaram centenas de cursos gratuitos nas redes para cuidar do ócio criativo dos confinados e a pergunta que parece não querer calar neste momento é: ‘qual será o legado da sua quarentena’?

 

A impressão que tenho é que todos nós precisamos sair deste lockdown falando russo e mandarim, e com as pernas e a bunda da J. Lo e o abdômen da Grazi Massafera (ou o corpo do Henri Cavill na versão masculina) e arrasando na cozinha num misto de Jamie Oliver e sua comida saudável, Paola Carosella, sempre uma diva cultivando fermento natural e brilhando com seus pães caseiros e Alex Atala, porque nada disso conta se não tiver estrela Michelin. Devemos aprender astrofísica, fazer meditação transcendental, ler os grandes clássicos, colocar a cinematografia em dia, redecorar o apartamento com um talento no nível Martha Stewart, ouvir todas as lives de todos os músicos do mundo em todas as suas versões e, para arrematar, fazer um tour virtual em todos os museus e galerias. Fico exausta só de pensar.

 

E se a premissa de que revivendo o mesmo dia várias e várias vezes começamos a perceber quem realmente somos, este confinamento me ensinou que eu sou metida a intelectual, mas no fundo não passo de uma dançarina frustrada de brega funk e axé. Eu nem olho mais para o relógio. Meu isolamento se resume em dormir e acordar a qualquer hora, maratonar “Friends” e “The Nanny” pela enésima vez, pensar em várias receitas que eu sei, quero e poderia fazer para o meu blog, mas não faço, e me jogar enlouquecidamente em aulas de dancefit ao som de Anita e É o Tchan.

A casa de Cildo Meireles – obra “Desvio para o vermelho”, no Instituto Inhotim (Foto: Luana Ferrari)

Mas o que este rebolado tem a ver com cultura e, mais precisamente, com arte contemporânea? Acontece que as necessidades básicas vão além do estoque de comida e papel-higiênico. Não passar necessidade também envolve o nosso psicológico. O confinamento é a legitimação daquela premissa de que a mente vazia é a morada do demônio e, prontamente, as instituições culturais do mundo todo se apressaram para garantir entretenimento de qualidade aos “quarenteiners”.

 

Que você seja um connaisseur, amador/amante, ou que esteja apenas iniciando sua aventura pelo universo das artes a oferta é infinita. A Pinacoteca de SP liberou um passeio virtual pelo seu acervo permanente; o MASP disponibilizou diferentes conteúdos em seus canais digitais; a Bienal de São Paulo, cuja edição de 2020 sugestivamente se chama “Faz escuro, mas eu canto”, teve sua abertura adiada para o dia 3 de outubro e lançou a Bienal em Casa que te convida a revisitar antigas edições da mostra na página do Google Arts & Culture. Inhotim, – maior museu a céu aberto do mundo, que escapou do lamaçal da tragédia de Brumadinho – sugere uma visita pelo Jardim Botânico e algumas das grandes obras expostas ao ar livre no conforto do seu sofá; e, mais ao Norte, o Museu da Memória Republicana, no Convento das Mercês – um dos Sete Tesouros de São Luíz –, propõe uma visita virtual pela eravirtual.org. Quer uma experiência internacional? Você pode dar uma espiadinha no Abapuru, que está no Malba (na Argentina) ou no Guernica, que fica no Museu Reina Sofia (em Madri), além de ter o seu momento único face a face com a Mona Lisa no tour virtual proposto pelo Louvre (Paris) e terminar com um passeio de 360° pelo prédio do MET (em Nova Iorque).

 

Quem precisa de 80 dias para dar a volta ao mundo com tudo isso disponível no celular?

 

Eu comecei a escrever este texto porque pensei que entre uma empinada de bumbum e um episodio de “Friends” eu poderia me aventurar pelo universo educativo virtual dos museus e encarar alguns cursos on-line pelos quais eu já tinha me interessado. Você sabia que existem inúmeras formações na internet independente de estarmos trancados em casa ou não? O MOOC, por exemplo, do inglês Massive Open Online Course (Curso Online Aberto e Massivo) é uma excelente plataforma que propõe material para um vasto e heterogêneo público, de graça e sem nenhum pré-requisito. No calor do momento, ou no pico da endorfina pós requebrada, me inscrevi em um curso oferecido pelo Grand Palais sobre o uso das cores primárias na arte e outro do Centro Pompidou sobre arte moderna e contemporânea.

 

Independente do fato de que, nesta quarentena, se eu arrumar a minha cama todos os dias já me sinto altamente produtiva, não foi só a preguiça e o desânimo que me fizeram abandonar os cursos no e-mail de confirmação da inscrição. Em um segundo momento eu passei a indagar o desejo que estes conteúdos despertariam em mim de correr para o museu mais próximo. Será que existe abstinência de museu?

A biblioteca de Yinka Shonibare – obra “The British Library”, na Tate

Na montanha-russa da pandemia (e deste texto), depois de uma queda leve veio um looping de 360°, o carrinho começou a andar de marcha ré e o questionamento mudou de direção. Em um mundo onde precisamos fazer check-in e postar foto no Instagram para legitimar uma atividade, visitar um museu virtualmente é quase como a árvore que cai no meio da floresta. Será que ela faz barulho se não tinha ninguém para ouvi-la despencar?

 

E transpondo a metáfora para a nossa realidade, eu pergunto: você quer andar por um museu virtualmente? A onda das mega-exposições transformou muitos museus em espaços voltados a espetáculos grandiosos, colocando espectadores face às mais famosas obras de arte do mundo. Em contrapartida, esta popularidade trouxe aos holofotes instituições que pertencem à vanguarda do um novo grande despertar cultural. Espaços comuns, intimistas, onde os visitantes geralmente procuram contemplação silenciosa. Que seja num ambiente tão cheio quanto um bloco de carnaval ou em um espaço onde o distanciamento social é um estado natural, a presença física me parece quase mandatória.

 

Ao passo que marcas de cerveja garantem o ganha-pão de alguns artistas, e restaurantes e bares vendem seus vouchers para tentar apaziguar a crise – instituições culturais suspendem seus núcleos educativos sem dó nem piedade e repensam suas atividades em função de um público que pode não dar o ar da graça.

 

Aqui na França, se fala em um começo de abertura a partir de 11 de maio, mas os espaços culturais não devem retomar suas atividades antes do mês de julho e, como ressalta a Presidente do Sindicato Nacional dos Guias de Museu, Hélène Norlöff, mesmo quando eles abrirem, o público não virá.

O banheiro de Maurizio Cattelan – obra “American”, no Guggenheim de Nova York

A ansiedade que o excesso de informação provido pelo confinamento gera já ganhou até nome da OMS: infodemia. Por isso, aproveite a sua quarentena para rever todos os filmes bobos que você gosta e dormir até meio dia sem culpa. Aproveite para comer o que tem vontade e se tiver vontade. Aproveite para malhar ou passar o dia no sofá. Aproveite para fazer quantas visitas virtuais você quiser e acumular diplomas, ou apenas jogar buraco com a sua avó. Mas lembre-se que quando a pandemia aliviar, os museus e galerias vão precisar mais do que nunca da sua presença e do seu apoio participando de suas atividades educativas.

 

No final das contas, não podemos negar que, mesmo quando o pânico da COVID-19 passar, muitas pessoas ainda terão receio de frequentar lugares públicos. Ir ao supermercado já vai gerar angústia o suficiente e, certamente, na onda inicial de retomada à normalidade, museus e bibliotecas que abrirão terão uma missão que transcenderá a reflexão e o aprendizado. Eu sou apenas uma jornalista que se atreve a cozinhar, então, o máximo que posso oferecer é uma torta e algumas palavras impressas em uma folha de papel, mas ainda acredito que após tantas semanas de quarentena mundial e tensões na alma, a arte virá para nos curar. Com medo, sim. Mas que vençamos e que as portas dos museus se abram o mais rápido possível.

Luana Ferrari

Luana Ferrari é paulistana, musicista, jornalista e uma cozinheira de mão cheia. Formada em comunicação, pós graduada em mediação e cultura e Mestre em musicologia pela Universidade Paris 8 (França), depois de uma temporada no Brasil trabalhando como Assessora de Imprensa para instituições como Bienal de Arte de SP, Instituto Tomie Ohtake, Sesc SP, entre outros, voltou a morar em Paris. Na cidade luz, se divide entre a cultura e a pilotagem do fogão e do site Luana’s Food Therapy e Instagram @luferrari12 onde compartilha sua rotina dentro da cozinha (seu habitat natural).

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1 Comment
  • Lucy Tomie Takahashi

    Maio 3, 2020at4:24 pm Responder

    Conheço a Luana desde os 12 anos, não vou escrever aqui quantos anos de amizade, basta dizer que são muitos… E ela está sempre se reinventando, nesta Pandemia, se reinventou mais uma vez! Muito orgulho dessa amiga, que, apesar de distante, está sempre muito próxima!
    Adorei o texto, Lu!!

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