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Qual o futuro dos monumentos?

Qual o futuro dos monumentos?

Prestes a terminar, 34ª Bienal de São Paulo reflete sobre as esculturas de natureza estática, com obras expostas ao ar livre no Parque Ibirapuera e no interior do prédio 

 

por Laura Rago 

Não é tão recente o questionamento sobre o que e como a sociedade deve fazer com os monumentos públicos considerados controversos e que homenageiam figuras coloniais. Historiadores e instituições culturais na Europa e no mundo já vêm trabalhando com essa problemática há um bom tempo. Mas essa pauta entrou na ordem do dia no Brasil em 2020.

 

Pensar sobre como devemos representar as figuras históricas no espaço público, criando dinâmicas de inserção e modos de ressignificar esses monumentos violentos, é também uma maneira de gerar uma contramemória e dispositivos capazes de  reconstruir o passado, muitas vezes feito de lembranças e esquecimentos. 

 

Foto de capa: “Chacina da Luz”, 2019, de Giselle Beiguelman (Foto: Ana Ottoni)
Escultura de Cecil Rhodes

REPROGRAMANDO MONUMENTOS PELO MUNDO

 

Para nortear essa discussão, contextualizamos o debate com alguns fatos internacionais. Em 2015, estudantes da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, removeram a estátua do britânico Cecil Rhodes, imperialista que acreditava na superioridade da raça branca. Um ano antes manifestantes em Kharkiv, no leste da Ucrânia, derrubaram uma estátua de Vladimir Lênin, líder revolucionário russo na extinta União Soviética. 

 

Em 2020, poucos dias depois do assassinato brutal de George Floyd, homem negro morto pela polícia em Minneapolis, manifestantes antirracistas, integrantes do movimento “Vidas Negras Importam”, derrubaram a estátua de um comerciante de escravos do século 17, na cidade de Bristol. Naquele mesmo ano, mais de 300 monumentos foram alvos de manifestantes chilenos durante os protestos no país. Ainda na América Latina, especificamente nos protestos da Colômbia, manifestantes derrubaram, em 2021, a estátua de Cristóvão Colombo. E não para por aí. 

ENQUANTO ISSO, O BRASIL ESTÁ PEGANDO FOGO!

 

Artistas também usam o monumento como matéria de criação, como é o caso do coletivo Aparelhamento em Monumentificação do Ressignificado. O grupo propõe a recontextualização das placas de memoriais de líderes genocidas, ao escrever uma nova biografia. 

“Monumento Nenhum”, de Giselle Beiguelman (Foto: Ioram Finguerman)
“Chacina da Luz”, de Giselle Beiguelman

A artista Giselle Beiguelman, uma das idealizadoras do projeto “demonumenta”, que discute a colonialidade na arquitetura e nos espaços públicos, reabre o debate sobre o esquecimento do espaço público e a relação da cidade com o seu patrimônio histórico e cultural. 

 

As obras Monumento Nenhum, no Beco do Pinto, e Chacina da Luz, no Solar da Marquesa de Santos, exibidas em 2019 no Museu da Cidade de São Paulo, são reflexos desta discussão que reacende também o questionamento sobre o abandono da capital cultural do país. Compostas por fragmentos de monumentos, as instalações reproduzem a situação das peças tal qual foram encontradas nos depósitos do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo (DPH-SP). 

Obra de Gustavo von Ha na exposição em cartaz no Paço das Artes, em São Paulo (Foto: Laura Rago)

O artista Gustavo Von Ha, muito conhecido por seus divertidos memes no Instagram, recriou uma escultura neoclássica de jardim e a nomeou de Buonasera Natasha, que faz referência ao famoso meme “Buonascera Natasha, buonasera Katucha” gravado na recepção de Natasha Simonini por Katucha, na festa anual de aniversário da travesti brasileira Bambola Star Kaxinawá na Itália. A obra pode ser vista na recém-inaugurada mostra Máscaras: fetiches e fantasmagorias, que conta com curadoria de Mirtes Marins de Oliveira, em cartaz no Paço das Artes. Ao colocar o monumento no meio da instituição, o artista questiona noções de imagem no mundo contemporâneo, representação, identidade e autoria.

Manifestação em frente da estátua do Borba Gato, em São Paulo

E quem não se lembra das imagens da escultura do Borga Gato em chamas, numa ação realizada pelo movimento Revolução Periférica? Elas invadiram o universo digital e dominaram as redes sociais no dia 24 de julho, em meio a um protesto nacional contra o presidente Jair Bolsonaro. 

 

Para quem não sabe, a estátua Manuel de Borba Gato, bandeirante paulista, caçador de indígenas e escravos fugidos, e explorador de jazidas de prata e ouro, foi erguida no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, e leva a assinatura do artista plástico já morto, Júlio Guerra. 

COMO DEVE SER A REPRESENTAÇÃO DA HISTÓRIA NO ESPAÇO PÚBLICO? 

 

Concorde-se ou não com a manifestação, o incêndio da escultura do Borba Gato cumpriu o objetivo: recontextualizou figuras genocidas e polêmicas do Brasil colonial e mais uma vez jogou luz no debate sobre a derrubada de monumentos controversos em terreno nacional e internacional, sobre seu caráter contrário aos movimentos históricos, como e sobre as novas técnicas de memorização a partir das imagens. 

Instalação “Entidades” , por Jaider Esbell (© Levi Fanan /.Fundação Bienal de São Paulo)

Aproveitando o ensejo da discussão, trazemos outros olhares para pensarmos o monumento a partir das obras apresentadas na 34a Bienal de São Paulo. A figura de natureza estática, que congela a história, ganha nova perspectiva no monumento efêmero de Jaider Esbell, morto precocemente neste ano. Duas serpentes infláveis, dispostas num dos cartões-postais mais reproduzidos do Parque Ibirapuera, nos convidam a refletir sobre as entidades (aquilo que é maior do que nós) imersas nas cosmologias de muitos povos originários e sobre a presença de monumentos que enaltecem os povos originários.

 

Na cidade de São Paulo, segundo pesquisa feita pelo Instituto Pólis, que catalogou 367 monumentos oficiais, existem apenas quatro de pessoas indígenas, e todos são representados por homens! Quanto à presença de monumentos que retratam pessoas negras, apenas sete, sendo um representado por uma mulher.  

Escultura de João Cândido da série “Corte Seco” de Paulo Nazareth (© Levi Fanan /.Fundação Bienal de São Paulo)

Ainda na área externa, deparamos com outras obras que convivem com o dia a dia do parque, como a série de nove trabalhos de grandes proporções do artista mineiro Paulo Nazareth. Posicionadas em pontos diferentes do Ibirapuera, as esculturas edificadas como outdoors levantam questões sobre as práticas deliberadas de quais monumentos devem ser erguidos e mantidos. Os trabalhos em escala urbana são de personagens históricos, que se tornaram símbolos de resistência e luta. Entre eles estão Aqualtune, Dinalva, João Cândido, José Campos Barreto e Carlos Lamarca, Juruna, Maria Beatriz Nascimento, Marighella, Marielle Franco e Teresa de Benguela. 

 

Para o artista, essas figuras estão à margem do reconhecimento oficial e muitas delas tampouco estão nos livros escolares, como João Cândido. Com a série,  Nazareth dá visibilidade e memória a personagens esquecidos por parte da sociedade.

Escultura de Hanni Kamaly (© Levi Fanan /.Fundação Bienal de São Paulo)

Chamou a atenção também os monumentos silenciosos de Hanni Kamaly, que podem ser vistos no interior do prédio da Bienal. As delicadas e poéticas esculturas da artista norueguesa parecem ser criaturas que habitam aquele espaço, sustentadas por pernas e braços – ao mesmo tempo que são frágeis, parecem nos impor alguma ameaça. As peças são feitas de tubos de metal com parafusos e marcas de solda aparentes, e são sempre intituladas em homenagem a uma pessoa vítima da violência institucionalizada. A artista reflete sobre essas histórias apagadas num processo de reinvenção da memória por meio das funções mais básicas associadas a um monumento, como história, testemunho e homenagem. 

 

Laura Rago

Laura Rago é curadora e crítica de arte graduada em história e pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Arte: Crítica e Curadoria. Trabalhou na Folha de S.Paulo como repórter de arte e música erudita, e foi editora-assistente na revista Bamboo. Colaborou para revistas como Vogue, Harper’s Bazaar e títulos da editora Abril. Atualmente, representa no Brasil o artista plástico argentino Tec e trabalha como curadora de projetos especiais na galeria Choque Cultural.

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